It's not about how hard you hit, but how hard you can get hit and keep moving forward
(In)justiça Brasileira: Caso “Escola Base”
No dia 28 de março de 1994, Lúcia Eiko Tanoue, mãe do menino Fábio, na época com quatro anos, e Cléa Parente de Carvalho, mãe da menina Carla, também com quatro anos, foram ao 6º DP, no Cambuci, bairro da zona sul de São Paulo, para registrar queixa contra os diretores da Escola de Educação Infantil Base.
Segundo elas, Icushiro e Aparecida Shimada, Maurício e Paula Alvarenga, os donos da Escola, organizavam orgias sexuais com a participação das crianças, filmando e fotografando tudo. Lúcia ouviu seu filho dizer que, junto de Carla, foi à casa de um coleguinha da escola, Ronaldo, 4 anos, filho do casal Saulo e Mara Nunes. Contou ter visto filmes de “gente pelada”, que batiam “fotos” e havia cama redonda. Tudo isso aconteceria durante o horário das aulas, e as crianças seriam levadas para fora da escola na Kombi de Maurício. A apuração foi deixada para o dia seguinte.
Quem dava plantão naquela segunda-feira, 28 de março, era o delegado Edélcio Lemos. Após encaminhar as duas crianças para exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML) e conseguir um mandato de busca e apreensão, Lemos dirigiu-se ao apartamento dos pais de Ronaldo, acompanhado de seis policiais, Cléa e Lúcia.
No apartamento a comitiva achou uma cama retangular, uma fita de vídeo com um show do cantor Fábio Jr. e filmes da máquina fotográfica do casal. Em seguida foram à escola. A essa altura, a imprensa já sabia sobre o caso. O repórter Antônio Carlos Silveira dos Santos, do Diário Popular acompanhou a revista na escola.
A escola foi revirada. Uma coleção com fitas de Walt Disney foi levada e nada mais foi encontrado. O delegado e os policiais, sem provas de que um crime havia acontecido, retornaram com as mães para a delegacia. Achando que o caso não havia recebido a atenção necessária, Cléa telefonou para a Rede Globo.
Com a chegada do repórter Valmir Salaro, a polícia se mobilizou a escutar os acusados. Todos alegaram inocência. No dia seguinte, uma novidade: um telex do IML adiantando o resultado do exame preliminar do menino Fábio.
Referente ao laudo nº 6.254/94 do menor F.J.T. Chang, BO 1827/94, informamos que o resultado do exame é compatível para a prática de atos libidinosos. Dra. Eliete Pacheco, setor de sexologia, IML, sede.
Naquela mesma noite, o Jornal Nacional noticiava o acontecido. Nada havia sido comprovado, mas todos os grandes veículos de São Paulo abraçaram as denúncias e deram manchetes sobre o caso a partir do dia 30.
Notícias como essa, de abuso sexual, principalmente envolvendo crianças, têm grande repercussão e, apesar de todo o rigor das matérias, que procuravam não acusar ninguém, surge a vontade da população de fazer justiça com as próprias mãos. Resultado: a escolinha foi depredada. Começava também o linchamento moral dos envolvidos. Todos tiveram que abandonar suas casas para não receber castigos físicos por um crime que não haviam cometido.
O feriado da Páscoa se aproximava, e a abordagem da imprensa começou a mudar, deixando de lado o relato formal para mergulhar no sensacionalismo. Percebendo isso, o delegado Edélcio Lemos começou sua busca por 15 minutos de fama, passando informações desencontradas para uma imprensa deslumbrada com a potencialidade do caso. Tornava-se muito mais fácil acreditar na versão oficial do que correr atrás dos envolvidos, que se escondiam, não por assunção de culpa, mas por medo dos juízes da opinião pública. Quase ninguém percebeu isso.
Mais três denúncias surgiram. Os jornais se adiantavam ao inquérito policial, ou até traziam informações que nem lá constavam. Como na matéria do dia 31 de março do Jornal Nacional, que sugere o consumo de drogas durante as supostas orgias, ou a possibilidade de contágio com o vírus HIV, em decorrência dos abusos. O caso havia tomado dimensões estratosféricas. Inicialmente com acusações de molestar sexualmente duas crianças, os acusados terminaram a semana drogando, e possivelmente transmitindo AIDS para sete. Novamente a Base é saqueada. A casa de Maurício e Paula também.
O silêncio precisa ser quebrado. Icushiro, Cida e Paula resolvem falar à imprensa. Mas a percepção do erro veio tarde. O delegado já havia ganhado bastante espaço e achava-se amparado em qualquer atitude que tomasse. Foi assim que no dia 5 de abril ele decretou a prisão preventiva de todos os suspeitos. Saulo e Mara se apresentaram para depoimento na polícia e ficaram presos. A advogada do casal teve acesso ao laudo final do IML. A vista aconteceu acidentalmente uma vez que Edélcio não mostrava para ninguém a pasta do inquérito. O resultado do exame: inconclusivo. As lesões encontradas poderiam ser atribuídas tanto a coito anal quanto a problemas intestinais (mais tarde, a segunda explicação seria confirmada). Os Nunes foram soltos três dias depois.
Lemos foi afastado do caso. Em seu lugar assumiram Jorge Carrasco e Gérson de Carvalho. A investigação foi reiniciada. Novas e velhas testemunhas foram ouvidas, as residências dos suspeitos foram visitadas, tudo com calma e em silêncio. A imprensa começava uma trégua e o caso finalmente seria explicado.
Novo revés. A partir de uma denúncia anônima, a casa do americano Richard Pedicini foi invadida pela polícia e ele preso por pedofilia. Ele seria o contato internacional dos molestadores da Base, promovendo orgias em seu casarão e filmando e fotografando crianças de várias idades. Mais uma vez os jornais se apressaram e colocaram Pedicini como vilão da história.
Nada ficou provado. Carvalho foi a público desmentir a ligação entre um caso e outro, os donos da escola e o americano nem ao menos se conheciam. A imprensa voltou atrás. O americano foi solto depois de nove dias.
No dia 22 de junho Gérson inocentou os seis acusados. O inquérito do Caso Escola Base foi arquivado. A conclusão: se houve crime, este ocorreu em outro lugar, com outros personagens. Pedicini só viria a ser inocentado um ano depois.
Apesar da absolvição legal, os acusados deste episódio nunca mais tiveram paz. Suas vidas foram destruídas e nenhuma compensação financeira foi paga até hoje, 16 anos após a comprovação de sua inocência.
Nenhuma rede de televisão, rádio, ou impresso se retratou formalmente pelos erros cometidos, nem procurou tocar no assunto. Com exceção da Folha de S. Paulo que lançou uma série de palestras e editorias de mea culpa.
O comportamento da imprensa
O erro maior no caso da Escola Base certamente foi o da polícia, porém é cristalino que a mídia espetacularizou a denúncia e a seguir assumiu as acusações como verdade provada e fechou os olhos para o linchamento moral dos acusados. A denúncia das mães era notícia de primeira página. Qualquer pai com filho na escola, em qualquer escola, possivelmente sentiu um frio na espinha ao saber da suspeita de pornografia com crianças.
Já nos primeiros dias da cobertura deveria ter sido aceso o sinal amarelo diante do desequilíbrio do delegado Edélcio Lemos. Ele assegurava, com convicção de vidente, a culpa dos acusados. Não parecia um investigador, mas uma testemunha ocular. Sua única “prova”, além do depoimento irregular das crianças, devidamente pajeadas pelas mães e sem qualquer acompanhamento psicológico, era um telex do Instituto Médico Legal sugerindo violação sexual de um menino. Mais tarde, o laudo do IML foi comprovado dúbio e incapaz de se contrapor à evidência de que o garoto sofria de assaduras crônicas. “Ciente da fragilidade das provas que tinha em mãos, o delegado com culpa, nas modalidades de imprudência e imperícia”, disse o juiz Paulo Ribeiro na sentença.
Prudência e perícia se afastaram também da imprensa. “Perua escolar carregava crianças para orgia”, estampou a Folha da Tarde. Notícias Populares, um tablóide indigno da liberdade de imprensa, afirmava: “Kombi era motel na escolinha do sexo”. “Escola de horrores”, sentenciou a revista Veja. A cobertura escrachada não preservou ninguém, nem mesmo as crianças, reconhecíveis pela identificação dos pais e atazanadas em noticiários da TV. Primeiramente no Jornal Nacional e, no dia seguinte, no Jornal Hoje, ambos da Rede Globo, uma repórter pedia a um menino de quatro anos que contasse detalhes escabrosos do suposto molestamento sexual.
– “A tia passou a mão em você?”, sugeria a repórter da Globo à criança inocente que brincava com o microfone.
O garoto olhava para a repórter e depois para a mãe, como se não tivesse entendido a pergunta ou a procura de ajuda na sua resposta, mas ficou em silêncio. A repórter continuou:
– Vocês assistiam filminho na escola? Tinha gente pelada?
– Esta mulher, ela deitava em cima de você?Diante da insistência nas perguntas veio a primeira reposta da criança: “Deitava”.
– O que ela fazia, o que ela queria?
Mais uma vez, diante da relutância do garoto, a jornalista sugeriu a resposta:
– Te beijar a boca?
O garoto respondeu com um aceno de cabeça…
Eu me lembro bem desta reportagem. Por algum motivo aquela “entrevista” ficou muito marcada em minha mente e a memória mais nítida que tenho dela são sobre as perguntas pouco inteligentes e auto-sugestivas que aquele protótipo de repórter fazia a uma criança de apenas 4 anos. Lembro que cheguei a comentar com minha mãe que assistia televisão comigo: “Tenho certeza de que se ela perguntar para a criança se existiam elefantes cor de rosa voando na escola ele também irá concordar, pois não tem a mínima idéia do que está acontecendo”.
Os erros da polícia e da mídia na Escola Base nada tiveram de originais. Apenas reiteraram a versão reforçada de uma sucessão de disparates profissionais, truculência, prepotência, desrespeito aos direitos humanos a que estão acostumados a polícia e a imprensa. Uma das vítimas deste caso diria mais tarde: “Eles [imprensa e polícia] se comportam como duas crianças covardes: uma segura e a outra bate”.
A principal causa da tragédia foi o barbarismo policial e a conivência da mídia com esse barbarismo. Uma é o espelho canibal da outra. A polícia não investiga, condena e divulga. A imprensa divulga, condena e não investiga. Ao final, as vítimas se amontoam na próprio infortúnio, a polícia nunca é responsabilizada e a imprensa se defende com a alegação invariável que apenas publicou o que lhe disseram.
Mesmo quando as primeiras evidências fortes de inocência dos professores foram divulgadas a imprensa demorou a reconhecer o erro e forjou outro – e desta vez dispensou a ajuda da polícia e mentiu sozinha. O delegado Lemos já estava afastado e em seu lugar assumira Jorge Carrasco quando, em abril, foi preso o americano Richard Pedicini, sob a suspeita de ceder o casarão em que morava, no bairro da Aclimação, para as “orgias” com as crianças. Levadas para reconhecer camas redondas e espelhos no teto, as crianças não reconheceram nada.
No dia seguinte, abastecidos pelo advogado das mães, Artur Proppmair, alguns jornais detonaram os notícias habituais: “Alunos da Escola Base reconhecem a casa do americano”, disse o Estadão; “Criança liga americano a abuso de escola”, disse a Folha. A grande maioria dos jornais fazia questão de que um crime existisse e, o mais grave, faziam questão de que alguém fosse condenado, mesmo que inocente.
O jornalismo responsável
O Diário Popular – atualmente Diário de S. Paulo foi o único a não publicar matérias sobre a Escola Base, mesmo tendo sido o primeiro veículo a receber a notícia sobre os possíveis abusos sexuais e com um possível furo nas mãos.
Miranda Jordão era o editor do Jornal na época. Em dúvida sobre a veracidade das informações dadas pelo delegado Edélcio Lemos, Miranda pediu para seu repórter Antônio Carlos Silveira dos Santos redigir uma matéria bastante técnica com as (poucas) informações que tinha. De posse desta, não publicar foi a sua opção. Ele fez o que ninguém “percebeu”: analisar as contradições do caso.
- Um delegado afirma que tem fotos e fitas de vídeo que mostram adultos fazendo sexo com os alunos, mas não mostra o material alegando que poderia prejudicar as investigações. Princípio único de qualquer acusação: quem acusa deve provar o que diz. A imprensa noticiou mesmo assim.
- As crianças foram interrogadas (crianças de quatro anos) sem a presença de um psicólogo e suas declarações tomadas como verdades absolutas e noticiadas sem o menor critério de apuração.
- O laudo do Instituto Médico Legal (IML) utilizado pelo delegado Edélcio Lemos como prova cabal dos abusos era ambíguo, dizendo ser “compatíveis com a prática de atos libidinosos” as lesões no ânus de uma das crianças. Lesões estas que, tempos depois se cogitaria, eram também compatíveis com a excreção de fezes ressecada (fato que a legista convenientemente não mencionou no primeiro laudo) e mais tarde se confirmaria eram conseqüência de um sério problema intestinal do garoto. Mas isso ninguém quis destacar.
Essas foram as três contradições principais do Caso Escola Base que o Diário Popular questionou. A pressão que a redação do jornal sofreu por não noticiar nada a respeito não foi pouca. Leitores suspeitaram até de um acordo entre o Diário e a Escola para abafar o caso. O Diário percebeu equívocos, analisou os dados, confrontou informações e não noticiou os fatos falsos, como deve ser a conduta de um veículo de comunicação.
Isso tudo foi em 1994, depois a história todo mundo conhece. O editor do jornal, Miranda Jordão estava certo, o delegado era um farsante, e toda a imprensa paulista já recebeu todo tipo de condenação (apesar de nunca ter pagado qualquer indenização). Mas a verdade é que quando me falam do caso Escola Base, lembro-me não dos erros massacrantes cometidos pela polícia e pelos veículos da mídia, mas sim do guerrilheiro solitário, que sendo escravo da notícia e do bom jornalismo, nada publicou.
Hoje o jornal Diário Popular não existe mais, pois foi comprado pelas organizações Globo e se chama Diário de S. Paulo. Miranda Jordão, pelo que sei, foi para o Rio de Janeiro. Não entendo essas entidades de classe de jornalistas, por que não fazem um busto em homenagem a tão merecedor profissional! Naquele ano o Diário Popular recebeu indicações para receber o Prêmio Esso de Jornalismo por fazer uma cobertura imparcial e verdadeira, porém o merecido prêmio nunca veio.
Há um completo silêncio em relação àqueles que agiram corretamente. Creio que a grande mídia tem vergonha do que fez e mais envergonhada ficaria ao se lembrar que um de seus veículos não fez. Quando me lembro do Caso Escola Base, sei que a mídia estava certa, isto é: a parcela representada por Miranda Jordão e o Diário Popular, no “Caso da Escola Base”. Aqui, sim, a mídia tinha razão!
Os verdadeiros criminosos
Além da evidente culpa dos meios de comunicação que ajudaram destruir a imagem dos inocentes, não podemos esquecer dos três maiores culpados nesta farsa toda:
Lúcia Eiko Tanoue Chang
Foi a mãe que levantou as primeiras suspeitas sobre os possíveis abusos sexuais na escola. Ela alegava ter visto seu filho de 4 anos encenar possíveis movimentos sexuais enquanto brincava e isso a levou a interrogá-lo sobre onde havia aprendido aquilo.
Eu poderia discursar por vários parágrafos sobre como uma brincadeira de criança não precisa ter relação alguma com abuso sexual. Isso sem falar que grupos de pagode de gosto duvidoso ensaiavam verdadeiras orgias em suas coreografias enquanto se apresentavam na TV em 1994. Independente do dia e do horário, as redes de televisão infestavam seus programas com grupos “Gera Samba” (posteriormente chamado de “È o Tchan”) e similares. Alguns programas não se limitam apenas a apresentar aquelas “danças”, o apresentador Raul Gil organizava verdadeiros concursos de dançarinos mirins em seu show de calouros com candidatos e “Jacarezinho” e “Carlinha Perez”. Apesar do mau gosto atroz, nenhum destes grupos e canais de televisão poderia ser responsabilizado por qualquer desvio de conduta das crianças, da mesma maneira que esta mãe não tinha o menor direito de julgar sem provas a escola por qualquer tipo de abuso.
Sobre a personalidade de Lúcia Eiko Tanoue Chang, vale ainda citar a manifestação do Ministério Público da lavra do Dr. Sérgio Peixoto Camargo (doc 2- fls 726 do Inquérito policial), citando laudo da Drª Maylin Garcia Tatton, psicóloga lotada na 1ª Delegacia de Defesa da Mulher:
D. Lúcia pareceu ser uma pessoa que fantasia muito, até mesmo como mecanismo de defesa inconsciente. Pelo que foi observado no discurso da mãe, para algumas coisas naturais no processo de desenvolvimento infantil, a mesma trata as questões com muitas fantasias e temores, ao que parece, por tratá-lo de forma muito infantilizada, como se tivesse medo de perder o seu lugar para o mesmo. Narrou com muito exagero o fato da criança se acariciar durante o banho. Segundo ela, por exemplo, Fábio introduzia o dedo no ânus, ou acariciava o “pipi”, muito provavelmente as fantasias, ou conflitos mal elaborados à nível da sua sexualidade ela projeta na criança, criando toda uma história, ao que parece muito fantasiosa. Pela dificuldade de administrar sua relação afetiva e sexual com seu cônjuge, a mesma faz o movimento de manipulação com, esta criança que a satisfaz de alguma forma à nível de suas fantasias. Questiona todos os atos e gestos da criança, não admitindo que estes sejam próprios do desenvolvimento de sua sexualidade. Pelas respostas observadas da criança, e o comportamento desta, apresenta-se a hipótese de que, provavelmente, ela tenha sido induzida pela mãe a dar respostas que ela lhe impunha. Essa análise vem da observação de que esta criança não tem condições, apesar de ter um bom desenvolvimento cognitivo, de dar respostas e comentários de forma tão elaborada (fls 646/7)
Cléa Parente de Carvalho
A principio ela foi uma marionete nas mãos de Lúcia Eiko, deixando-se convencer de que sua filha de 4 anos também havia participado do circo infernal e fantasioso que se formou sobre as falsas denúncias de pedofilia, mesmo ela não tendo percebido qualquer comportamento ou marcas estranhas em sua filha. A típica situação de “Maria vai com as outras”.
Muitos podem argumentar que estas mães não têm culpa das proporções que o caso tomou, afinal elas apenas fizeram seu papel de defender os filhos e procurar a polícia para que a situação fosse investigada. Eu entendo muito bem esta questão; elas tinham todo o direito (e vou mais além, o dever de mãe) de procurar as autoridades e comunicar seus temores, inclusive citando os nomes de seus principais suspeitos, os donos da Escola Base. Eu teria feito o mesmo e não pensaria duas vezes em procurar a polícia caso desconfiasse que alguém houvesse abusado de um filho meu.
Porém, suas ações não se limitaram a isso. Insatisfeita com o andamento das investigações, Cléa Parente ligou para a Rede Globo e espalhou aos quatro ventos que os donos da escola haviam sim abusado das crianças. Não era mais uma suspeita, virou uma afirmação! A partir deste momento ela e Lúcia Eiko deixaram de lado qualquer caráter e resquício de moral que talvez tivessem. Não importava mais se suas suspeitas eram falsas ou verdadeiras, elas queriam apenas destruir as vidas daquelas pessoas, não importante se eles eram culpados ou não.
Nos anos 80, por volta de meus 7-8 anos de idade, eu adorava colecionar álbuns de figurinhas, assim como meus colegas de escola e do bairro onde eu morava. Economizava o dinheiro que minha mãe dava para o lanche na escola e depois passava na banca perto de casa para comprar figurinhas novas. Mas como toda criança sem qualquer malícia, eu também era bastante ingênuo. Meus amigos costumavam me fazer propostas do tipo: “me dá uma figurinha daquela e amanhã eu dou duas para você”. E eu, bobo, dava.
O tempo passava e eu não recebia a minha parte do trato. Ficava bravo, frustrado e recorria a minha mãe (doce época da infância quando pensamos que nossos pais podem resolver qualquer problema) dizendo: “Mãe, Fulano me roubou, ele é um ladrão”. Minha mãe, sempre era muito rápida em me perguntar: “Isso aconteceu agora? Você pode provar?” e quando a minha reposta era negativa, que isso havia acontecido dias atrás, em seguida vinha a repreensão: “Se você não tem como provar então não diga mais isso em voz alta. Você pode falar isso para a tia da escola ou para mim, que sou sua mãe (as ‘autoridades’, no meu caso), mas não fale para mais ninguém. Guarde para você. Algumas acusações são muito graves e você só pode fazê-las se provar tudo que diz”.
Lembro que fiquei muito triste quando ouvi aquilo de minha mãe. Na minha mente de criança aquilo era um roubo (alguns podem pensar que realmente eram roubos, mas hoje vejo que meus amiguinhos não eram e nunca foram ladrões – eles eram apenas crianças, tão imaturas quanto eu era e não tinham noção do que estavam fazendo). Apesar de ter certeza do que aconteceu, eu não podia espalhar a notícia para ninguém sem provas. Fiquei sem minhas figurinhas, mas aprendi duas lições valiosas: deixei de ser ingênuo e aprendi que algumas acusações são muito graves para serem feitas sem provas.
Lúcia e Cléa nunca aprenderam esta lição. Ao contrário de mim, elas não tinham certeza alguma do havia acontecido (eram apenas suspeitas), mas mesmo que estivessem convictas de que seus filhos realmente foram abusados sexualmente, elas não estavam preocupadas em encontrar o(s) verdadeiro(s) criminoso(s). Acharam mais fácil denegrir a Escola Base e atropelar a investigação policial. Mas, e se os criminosos fossem outros? Os professores da Escola Base seriam condenados injustamente enquanto o verdadeiro criminoso ainda estaria a solta. Será que elas estariam felizes com isso, em saber que o verdadeiro pedófilo continuava impune?
Porém um caso nem outro se provaram verdadeiros. Os donos da Escola Base sempre foram inocentes, as crianças felizmente nunca foram abusadas. O verdadeiro crime sempre esteve nas cabeças e nas ações impetuosas e precipitadas destas pessoas irresponsáveis. E por cometerem tal crime bárbaro elas devem sim ser responsabilizadas. Devem ser execradas da sociedade, da mesma maneira que ajudaram a execrar os inocentes da escola, e devem sofrer as maiores penalidades possíveis da lei.
Edélcio Lemos
Certamente o maior bandido deste crime, o ex-delegado Edélcio Lemos, deveria ter sido o primeiro a ser condenado e pagar pelo crime hediondo que cometeu. Ao contrário das mães e dos jornais que destruíam a imagem da escola, ele, como autoridade policial, tinha o dever de fazer uma investigação imparcial, colhendo todos os fatos antes de tomar qualquer ação.
Antes do caso da Escola Base, Edélcio já era conhecido pelos jornais da época por seus abusos de poder. Quando as mães avisaram a Rede Globo e as primeiras câmeras começaram a chegar, a investigação foi esquecida. Para ele era muito mais fácil colocar inocentes atrás das grades e posar como um super herói que tira os bandidos de circulação. Enquanto duravam seus 15 minutos de fama e ele fingia trabalhar, seu comportamento tendencioso e falso profissionalismo ficaram evidente em vários momentos:
- E se recusava a divulgar para a imprensa e para os advogados de defesa dos acusados o laudo completo do IML sobre as supostas lesões sexuais que uma das crianças tinha. Laudo esse que dizia claramente ser impossível determinar a origem das lesões.
- Algumas das vítimas da Escola Base foram presas sem ao menos ter seu depoimento tomado, retirando totalmente seu direito de defesa.
- Quando questionado sobre quais provas ele havia coletado nas casas e na escola para ter prendido os suspeitos, o ex-delegado afirmou várias vezes de que havia encontrado fitas de vídeo e fotos que comprovavam a participação de todos no crime de pedofilia. Neste ponto ele extrapolou todos os limites do aceitável, como se isso fosse possível, pois além de não investigar ele agora estava forjando provas.
Quando a Corregedoria da Polícia Civil percebeu toda a burrada cometida por Lemos e o retirou do caso, se esperava uma punição exemplar para ele e que fosse condenado pelos crimes que tinha cometido. Entretanto ele apenas foi transferido para o Departamento de Investigação sobre Narcóticos do Estado de São Paulo (Denarc) e continua trabalhando lá até hoje. Segue recebendo seu salário religiosamente e nunca sofreu qualquer punição administrativa.
Nos anos seguintes a esta tragédia, Lemos mantém sua vida como se nada tivesse acontecido: (1) 10 anos depois do caso, em 2004, ele se candidatou ao cargo de Vereador pelo PTN na cidade de Mairiporã/SP, mas felizmente teve uma votação insignificante e não foi eleito; (2) posteriormente ele foi um dos responsáveis por vários processos seletivos da justiça de São Paulo, entre eles para os cargos de papiloscopista e carcereiro; e, nos últimos anos (3) Edélcio se habilitou para trabalhar no Pregão da Secretaria de Segurança Pública de SP.
A dúvida que não sai da minha cabeça ao saber de tudo isso é: como alguém repugnante como Edélcio Lemos vem exercendo todas estas funções no decorrer do anos? É um alívio saber que ele não foi eleito, mas como se explica a sua escolha na preparação dos concursos para carcereiro e papiloscopista? Como alguém comprovadamente sem o menor senso de justiça e caráter pode fazer parte de uma comissão que elegerá pessoas para cargos em que a lei deve ser respeitada com rigor? O que falar então de seu trabalho como Pregoeiro?
De acordo com a Associação Nacional do Ministério Público de Contas (AMPCON), entre as obrigações e deveres de um Pregoeiro estão:
(…) o Pregoeiro não pode, nem deve, ceder a qualquer tipo de pressão; deixar-se influenciar por argumentos vis; atuar impensadamente, de modo que possa vir a se complicar, futuramente; pecar pela pressa, pela falta de iniciativa; agir com soberba e arrogância de quem tem a sensação do poder; prometer o que não pode cumprir e, é claro, desbordar dos limites da moralidade e da probidade administrativa.
Mais uma vez, como é possível que este crápula esteja livre e levando esta vida? Justiça ZERO!
Tão grave quanto os abusos intoleráveis cometidos por todos, é a demora inaceitável do judiciário em conceder as indenizações para as vítimas, 16 anos depois do crime. Os inúmeros recursos e manobras jurídicas são um tapa na cara dos donos e professores da Escola Base que trabalhavam de forma digna e honrada, mas que foram violados por esta verdadeira quadrilha que tirou sou sossego pelo resto da vida.
Em 2004, 10 anos depois do caso, um grupo de estudantes de jornalismo fez um excelente documentário sobre o caso da Escola Base e uma das pessoas entrevistadas para o trabalho foi uma pasteleira que trabalhava a mais de 12 anos na mesma rua onde a escola ficava. Os estudantes perguntaram se ela se lembrava da repercussão do caso na época e sobre o que achava de tudo isso. Para sua surpresa, a resposta da pasteleira foi: “Que absurdo foi tudo aquilo, né? Espero que aqueles tarados ainda estejam presos e que estejam sofrendo bastante por terem maltrado as criancinhas”. Quando os estudantes lhe contaram que os acusados estavam livres e que na verdade eram inocentes, a pasteleira ficou chocada e disse: “Meu Deus, eu não sabia de nada disso. Para mim eles serem foram os culpados”.
Infelizmente quando alguém quer destruir a imagem de outra pessoa isso aparece em letras garrafais na primeira página dos jornais, mas quando esta pessoa é inocentada isso aparece no máximo numa notinha de rodapé na última página.
Nada resume melhor esta triste história tão bem como as palavras do promotor Sérgio Camargo, que pediu o arquivamento das acusações de pedofilia contra a Escola Base:
“(…) É de se lamentar a desnecessária provocação do aparelhamento policial pela fantasia de pessoas imaturas, ignorantes, apoucadas de compreensão e destituídas de lógica, que não conseguem visualizar as gravíssimas consequências de seus atos impensados. Com efeito, em razão do noticiário veiculado com inevitável sensacionalismo em torno das providências policiais supra relatadas, populares exaltados procederam a odiosa depredação do estabelecimento de ensino, agravando ainda mais a penalizante condição a que foram submetidos seus dirigentes e familiares, como é de conhecimento público.”
| This entry was posted by hryun on 2010-03-23 at 19:54, and is filed under interessante. Follow any responses to this post through RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta ou fazer um trackback do seu próprio site. |



há 1 ano atrás
Parabéns por esse excelente resumo deste episódio lamentável da imprensa brasileira. Podre é o sensacionalismo que parece tomar conta dos veículos de comunicação de hoje.
há 7 meses atrás
O caso da Escola Base é um dos que eu sempre procuro obter maiores informações desde o ocorrido, e por acaso encontrei hoje este seu artigo brilhantemente escrito, com muitas informações e detalhes os quais eu desconhecia, só tenho que parabenizá-lo.
há 3 meses atrás
Excelente relato do caso. Que este caso sirva para impedir que outros tão horrendos como este possam ocorrer.
há 2 meses atrás
Excelente artigo parabéns.
É muito triste saber que vidas de várias pessoas foram totalmente destruidas e que dinheiro nenhum vai reparar essa tragédia.
É uma pena que no Brasil a justiça é tão demorada, já se passaram 18 anos e nada foi feito, nada foi reparado, e parece que nada vai acontecer.
Fica aqui a lição de como é fácil acabar com a vida e reputação das pessoas e como é difícil repara-la.
há 1 mês atrás
Ler a excelênte matéria causa-nos vergonha pela forma como foi conduzido,
indignação pelo que até a presente data passam os atingidos de fato,
repúdio aos algozes daqueles prematuramente condenados
vergonha por um Estado que não tem a grandeza de reconhecer seu papel principal de culpa no erro acontecido, buscando o que se preconiza na Constituição Federal. Reparação dos danos.